“Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente”. Skinner

O que a educação de meninos e meninas nos diz sobre saúde mental

Uma reflexão sobre como a educação de gênero impacta expectativas, relações afetivas e o sofrimento psíquico de mulheres e homens ao longo da vida.

DIÁRIO CONTEXTUAL

Flávia Melo — Psicóloga | Instituto Contextual

2/6/20262 min read

Qual de nós, meninas, não lembra de ter ouvido ainda criança que: “você deve se comportar como uma mocinha”, ou “seja boazinha”, e “para o casamento dar certo, depende da mulher”? Qual dessas você já ouviu? Todas, talvez!

Fomos ensinadas que nosso maior sucesso é o casamento.

O que foi ensinado às meninas

Fomos ensinadas que nosso maior sucesso é o casamento e, para tal, para alcançar esse sucesso, devemos ter comportamentos passivos, sermos excelentes nas tarefas domésticas, insistir, compreender, suportar e perdoar. Caso contrário, não estaremos sendo “boas mulheres” e, consequentemente, não alcançaremos nosso sucesso na vida. Nenhuma de nossas mães fez isso de maneira deliberadamente consciente, mas fomos todas, inclusive elas, sendo ensinadas de maneira coletiva que deve ser assim. É algo estrutural, está posto pela sociedade, mesmo que de maneiras não tão claras.

O que foi ensinado aos meninos

Já os meninos são ensinados que o sucesso deles está ligado a construir coisas, acumular riquezas, serem esportistas e que, para serem bons maridos, se assim desejarem, basta estarem lá na relação, sem uma participação ativa nela. Isso é implicitamente ensinado a eles: estar em uma relação já é mais que suficiente.

Quando a conta não fecha
O resultado?

Uma equação que nunca fecha. Enquanto nós damos tudo para uma relação existir, eles dão o mínimo. São dois pesos e duas medidas para a mesma situação. Basta observar quando uma relação acaba: de quem é a culpa? Nossa, é claro! Nós é que falhamos miseravelmente na manutenção da relação, fomos insuficientes, incapazes.

Educação, amor e sofrimento psíquico

Homens são deliberadamente ensinados a produzir bens e serviços, a acumular conquistas e riquezas, enquanto mulheres são educadas para sonhar com o príncipe, com o casamento, com o amor, com a maternidade. Eles são até ensinados a querer o amor, mas nunca a precisar dele. Já nós somos ensinadas a fazer do amor nosso objetivo maior. Valeska Zanello, descreve maravilhosamente bem essa relação desigual de educação entre homens e mulheres quando diz que:

Diante desse contexto, nós mulheres encaramos que o sofrimento, a exaustão e as inúmeras renúncias que fazemos em nome do amor sejam algo natural, quando o que a investigação da história nos mostra é que grande parte dos nossos comportamentos são influenciados pela educação, passada de geração a geração, na qual mulheres foram condicionadas a se apertar para caber na expectativa daquilo que foi criado sobre o que é ser mulher.


E é um espaço tão pequeno, tão minúsculo, que o desdobramento não podia ser mais desastroso para ambos os lados.

Refletir sobre como fomos educadas, e sobre o que isso produziu em nós, também é uma forma de cuidado com a saúde mental. Questionar não é negar a história, é abrir espaço para relações mais justas, conscientes e possíveis.

“Os homens são ensinados a amar muitas coisas e as mulheres são ensinadas a amar os homens.” — Valeska Zanello, A Prateleira do Amor