“Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente”. Skinner

Fibromialgia além da dor: o que mudou quando parei de lutar contra o que não podia controlar

Nem toda dor vai embora, mas a forma como você vive com ela pode mudar tudo. Um relato sobre fibromialgia, aceitação e a construção de uma vida possível, mesmo nos dias difíceis.

DIÁRIO CONTEXTUAL

Cristiane Fonseca

5/12/20265 min read

Tudo começou de um jeito que, na época, parecia simples demais pra virar algo tão grande.

Descobri o diagnóstico de fibromialgia em 2019, a partir de um episódio que, inicialmente, não parecia ter relação com uma condição sistêmica. O primeiro sinal foi uma dor na região de um dente. Procurei atendimento odontológico imaginando um problema localizado, como uma cárie extensa, mas não havia nenhuma alteração que justificasse aquele nível de desconforto. Foi sugerido o uso de uma placa para controle de apertamento dentário, hipótese comum diante de queixas orofaciais.

No entanto, antes mesmo de iniciar esse manejo, a dor se expandiu. Em poucos dias, o que era localizado passou a ser difuso. A dor atingia músculos, articulações, ossos e também a pele, com uma sensação descrita, na literatura, como alodinia, isto é, dor diante de estímulos que normalmente não seriam dolorosos.

Na prática, era como se o corpo inteiro tivesse sensível demais.

Em alguns momentos, a sensação se assemelhava a uma queimadura, mas com intensidade elevada, a ponto de comprometer atividades básicas.

Segurar objetos, abrir uma torneira, caminhar ou calçar um sapato tornaram-se tarefas difíceis. As mãos e os pés eram especialmente afetados, mas o desconforto não se restringia a essas regiões. Até o contato da roupa com o corpo podia ser insuportável. A intensidade variava ao longo do dia, com piora significativa no período da noite.

Não era só dor, era a sensação de que eu estava perdendo o controle do meu próprio corpo.

Esse padrão teve impacto importante sobre o meu funcionamento emocional

No final da tarde, passei a apresentar episódios de ansiedade, com taquicardia e um pensamento recorrente de perda de controle sobre o próprio corpo. Havia uma preocupação persistente de que aquele estado pudesse se tornar permanente.

Essa fase mais crítica durou aproximadamente três meses. Durante esse período, precisei me afastar das atividades profissionais. A sobrecarga associada às responsabilidades de trabalho e aos compromissos financeiros funcionava como fator de amplificação do sofrimento.

Era como se tudo pesasse mais: o corpo, a rotina e até o futuro.

Após essa fase, não voltei a apresentar crises com a mesma intensidade e duração. No entanto, a condição não desapareceu.

Fibromialgia: você sabe o que realmente acontece?

A fibromialgia é compreendida como uma síndrome de dor crônica, com envolvimento de mecanismos centrais de modulação da dor, frequentemente associada a alterações no sono, fadiga persistente e dificuldades cognitivas.

Mas, no dia a dia, isso se traduz de um jeito bem concreto: redução de atenção, lentificação de processamento e prejuízos de memória operacional, fenômeno muitas vezes referido como “fibro fog”. Ao longo dos anos, fui identificando diferentes manifestações associadas ao quadro. Algumas já estavam presentes muito antes do diagnóstico, mas não eram reconhecidas como parte de um mesmo padrão.

Sempre tive tendência a quedas e pequenos acidentes, com frequência maior do que o esperado. Na época, eu achava que era só “desatenção”, hoje entendo que tinha mais coisa ali.

Também já apresentava dores recorrentes na coluna e na região cervical, além de desconfortos em pontos específicos do corpo, conhecidos como pontos gatilho, caracterizados por sensibilidade aumentada à palpação. Episódios de dormência, formigamento e dores em fisgada também faziam parte da minha experiência, mas eram interpretados como algo comum. A insônia, por outro lado, não fazia parte da minha rotina até a primeira crise. Foi a partir daquele período que o sono deixou de ser reparador, passando a se tornar um dos fatores mais impactantes no meu funcionamento diário.

Um aspecto relevante é a variabilidade dos sintomas. Tem dias melhores e dias em que tudo parece piorar de novo. A condição não se apresenta de forma estática.

Como a terapia me ajudou

Foi nesse contexto que a terapia entrou como uma das primeiras e mais importantes indicações. E, olhando hoje, foi um divisor de águas.

Contar com uma profissional competente e bem preparada teve um papel decisivo no meu processo. Naquele momento, não se tratava apenas de compreender a dor do ponto de vista físico, mas de aprender a se relacionar com ela e com tudo o que vinha junto. Um dos focos centrais do trabalho terapêutico foi ampliar a minha capacidade de lidar com as mudanças nas relações. A fibromialgia não impacta apenas o corpo. Ela atravessa vínculos.

E isso, às vezes, dói tanto quanto o próprio sintoma físico.

Em diferentes momentos, precisei lidar com incompreensão, falta de validação e, por vezes, ausência de apoio em contextos afetivos, familiares e sociais. A terapia foi fundamental para desenvolver repertórios de enfrentamento nessas situações.

Outro eixo importante foi o desenvolvimento de uma postura menos punitiva em relação às próprias limitações. Talvez uma das partes mais difíceis tenha sido parar de me cobrar como se nada tivesse mudado.

Nesse sentido, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem sido amplamente apontada como uma das abordagens mais consistentes para o manejo de condições crônicas, incluindo a fibromialgia. Modelos contemporâneos indicam que tentativas persistentes de controle ou eliminação da dor podem, paradoxalmente, ampliar o sofrimento.

Foi aí que algo começou a mudar pra mim: a ACT propõe uma mudança de foco. Em vez de centrar esforços na eliminação completa dos sintomas, trabalha-se o desenvolvimento de flexibilidade psicológica. Na prática, isso significou aprender a conviver com a presença de dor, desconforto ou fadiga, sem que esses eventos determinassem completamente minhas escolhas.

Outro componente relevante foi o treino de desfusão cognitiva. Aprender que pensamento não é fato mudou muita coisa. A aceitação, nesse contexto, não se refere a resignação. Não é “desistir”, é parar de lutar uma luta que só te desgasta.

ACT e mudança de perspectiva

Tratamento atual

Atualmente, o manejo que sigo está alinhado com o que tem sido considerado padrão de tratamento em diretrizes recentes. A prática de exercício físico é um dos pilares centrais. Realizo musculação três vezes por semana, com progressão de carga gradual, respeitando limites fisiológicos. A natação tem sido uma estratégia particularmente relevante. É um dos momentos em que meu corpo parece cooperar um pouco mais. Além disso, faço uso de medicação para dor neuropática. Consegui me adaptar bem às medicações de primeira escolha, o que nem sempre ocorre com todos os pacientes.

Impactos na vida cotidiana

Na prática, viver com fibromialgia implicou mudanças concretas. E algumas delas não foram fáceis de aceitar. Houve necessidade de reduzir a jornada de trabalho. Há dias em que a sonolência interfere diretamente na produtividade.

Atividades que antes eram realizadas com facilidade passaram a exigir maior planejamento. Também há momentos em que não consigo oferecer o nível de disponibilidade que gostaria às pessoas próximas. E isso impacta porque não é falta de vontade. Essas mudanças exigem um ajuste contínuo de expectativas.

A terapia teve um papel estruturante nesse processo. Se antes eu tentava “voltar a ser quem eu era”, hoje o foco é construir uma vida possível com o que eu tenho. Embora o processo terapêutico tenha sido concluído, os aprendizados permanecem ativos no meu cotidiano. A convivência com a fibromialgia não é estática, e a base construída na terapia segue funcionando como referência para ajustes contínuos e contextualizados.